Um
dos maiores símbolos da Curitiba de antigamente era um palhacinho de roupa azul
e gravata-borboleta vermelha. As figurinhas de Zequinha e seus múltiplos
personagens viraram febre, conquistaram gerações, viajaram o mundo e
atravessaram décadas acompanhando tanto a evolução urbana da capital paranaense
como os comportamentos sociais.
Um dos maiores símbolos da Curitiba de antigamente era um palhacinho de roupa azul e gravata-borboleta vermelha. As figurinhas de Zequinha e seus múltiplos personagens viraram febre, conquistaram gerações, viajaram o mundo e atravessaram décadas acompanhando tanto a evolução urbana da capital paranaense como os comportamentos sociais.
Criado
entre 1928 e 1929 como estratégia comercial para impulsionar as vendas das
balas produzidas pela fábrica de doces A Brandina, dos irmãos Sobania, Zequinha
nasceu em uma Curitiba sem asfalto, de bondes e carroças e habitada por cerca
de 100 mil pessoas, quase metade da população do atual bairro da CIC.
Do
início até os dias atuais, Zequinha soma aproximadamente 1.200 figurinhas. Cada
imagem mostrava o palhacinho exercendo profissões, vivenciando cenas urbanas ou
representando tipos sociais da época. De ferreiro a médico, astrônomo,
agricultor, ambulante, lixeiro, Zequinha desempenhou múltiplas funções.
Ao
longo de quase um século passou pela mão de três desenhistas. Incialmente o
litógrafo Alberto Thiele, que fez as primeiras 50 figurinhas rodadas na
histórica Impressora Paranaense. A primeira ilustração, desenhada por Thiele,
retratava o palhaço tomando banho em sua banheira, ponto de partida para uma
coleção que marcaria gerações.
Na
década de 1940, Paulo Carlos Rohrbach assumiu o traço do palhacinho e desenhou
mais 150 imagens. Com esses dois artistas, foram produzidas quatro séries de
figurinhas que embalaram milhares de balas até 1967 e motivaram a criançada a
comprar os doces, na tentativa de completar a coleção.
Além
de conquistarem o público pelos desenhos, as figurinhas surgiram em uma época
em que havia poucas opções de brinquedos para as crianças. Nesse contexto,
brincadeiras como o tradicional “bafo” ganharam força e marcaram a infância de
gerações que se empenhavam em ampliar suas coleções. Para quem completasse o
álbum, havia ainda a possibilidade de trocar as figurinhas por brinquedo.
Zequinha no então ICM - Após um hiato de 12 anos, Zequinha
volta repaginado em 1979 pelo artista curitibano Nilson Muller, e se torna o
garoto-propaganda do Governo do Paraná, numa grande campanha de arrecadação do
então ICM (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias).
No
início da década de 2020, Zequinha seguiu carreira solo até o falecimento de
Muller, em janeiro deste ano. Foi ele quem fez as maiores transformações no
personagem, que ganhou traços mais suaves, um ar mais leve e características
contemporâneas de diversidade e respeito.
Zequinha polêmico - O personagem também refletiu
valores e contradições de seu tempo. Algumas edições antigas traziam cenas hoje
consideradas inadequadas, com estereótipos e situações violentas: Zequinha
assaltante, suicida, briguento, gangster, racista e outros comportamentos que
certamente fariam o personagem ser “cancelado”, para usar um termo do momento.
A partir da década de 1980, essas representações foram reformuladas.
Ao
mesmo tempo, ele sinalizava uma Curitiba passando por importantes processos de
modernização, como o alargamento de ruas e calçadas, expansão da energia
elétrica e do saneamento, automóveis nas ruas. Nesses contextos aparecem
Zequinha como eletricista, mecânico, aviador, engenheiro, demonstrando uma cidade
que deixava suas características rurais para se tornar uma metrópole.
“Zequinha não é só figurinha, ele também é
memória de Curitiba e parte da identidade da cidade”, afirma Camila Jansen,
historiadora que usou as ilustrações do palhaço em seu doutorado pela
Universidade Federal do Paraná.
A
pesquisadora usou a primeira coleção de figurinhas, entre 1929 e 1948, para
analisar os impactos da modernização e da urbanização em Curitiba. A partir das
imagens do palhacinho, investigou costumes, tecnologias e transformações
culturais da cidade.
O
doutorado, em 2019, resultou no livro “As Balas Zequinha e a Curitiba de
Outrora”, publicado no final de 2024 com apoio da Fundação Cultural de Curitiba
por meio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura.
O
livro pode ser encontrado em diversos pontos, como na loja do Museu Oscar
Niemeyer, nas Livrarias Telaranha e Arte & Letra e em outros locais de
Curitiba e em Ponta Grossa.
A
pesquisa da autora partiu do documentário “Zequinha Grande Gala”, lançado em
2005 pelo cineasta Carlos Henrique Tullio. Após assistir a obra, a pesquisadora
entrou em contato com o documentarista que a auxiliou a encontrar o material
para o estudo.
Zequinha na Casa da
Memória - O material
histórico usado tanto para o documentário como para as pesquisas de Camila
sobre o personagem está preservado na Casa da Memória de Curitiba, centro de
documentação da Fundação Cultural de Curitiba.
O
acervo reúne mais de 500 itens originais relacionados a Zequinha, incluindo uma
cartela com as 200 estampas da primeira fase e um álbum completo autografado e
doado por Nilson Muller, o desenhista curitibano que assumiu a fase moderna do
personagem no início dos anos 1980.
Administrada
pela Diretoria de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da Fundação Cultural
de Curitiba, a Casa da Memória é referência em documentação histórica, com foco
na trajetória de Curitiba e do Paraná. O material é disponibilizado
gratuitamente para consulta pública. Os itens estão disponíveis para a consulta
digital via o email casadamemoria@curitiba.pt.gov.br.
“A Casa da Memória é fundamental para
pesquisas sobre a história e a identidade de um lugar, mas, um centro de
preservação só faz sentido se a população reconhece a importância de conhecer
mais sobre nós e sobre o nosso passado”, conclui a pesquisadora.
A
importância de Zequinha para a história de Curitiba é tamanha que ele foi tema
do primeiro Boletim da Casa da Memória. Escrito por Valêncio Xavier, o boletim
“Desembrulhando as Balas Zequinha”, foi lançado em 1974 para acompanhar a
exposição do acervo das Balas Zequinha na Casa Romário Martins.
Zequinha no Futuro - A família de Nilson Muller é a
guardiã do Zequinha. Antes de falecer, aos 84 anos, o artista deixou uma série
de ilustrações do palhacinho não publicadas. Katia Gebur Muller, nora do
desenhista, afirma que pensa em fazer uma curadoria do material para lançar
futuramente. Os planos são de manter tanto a memória do Nilson como do Zequinha
vivas. “Nós queremos tratar o Zequinha
com o maior carinho e o maior respeito que ele merece, assim como honrar o
legado do Nilson”, afirma Kátia.

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